Lenacapavir: a PrEP semestral que revoluciona a prevenção do HIV

Imagine receber apenas duas aplicações por ano e estar protegido contra o HIV.

Parece futuro? Não é mais.

No dia 18 de junho de 2025, o FDA, agência regulatória dos Estados Unidos, aprovou o lenacapavir (Yeztugo®) como a primeira opção de PrEP (profilaxia pré-exposição) injetável de aplicação semestral, naquele país.

Um marco que pode transformar os rumos da prevenção global.

O que é o lenacapavir?

O lenacapavir é um antiviral da classe dos inibidores do capsídeo do HIV. Sua ação impede etapas essenciais da replicação viral, oferecendo uma barreira eficaz contra a infecção.

A grande inovação está na durabilidade: uma única injeção subcutânea protege por seis meses. Isso significa uma alternativa extremamente prática para pessoas que não conseguem manter o uso diário da PrEP oral, seja por questões de rotina, estigma ou acesso.

Nos estudos clínicos internacionais PURPOSE 1 e PURPOSE 2, a eficácia foi impressionante: 96% a 100% na prevenção do HIV, em diferentes populações e contextos.

Na prática, o que muda?

  • Mais aderência: duas aplicações por ano eliminam o risco do esquecimento diário.
  • Mais discrição: sem necessidade de pílulas visíveis, lembretes ou explicações.
  • Mais inclusão: uma estratégia especialmente útil para quem enfrenta desafios com a PrEP oral.

É uma revolução na forma como encaramos o cuidado em saúde sexual.

Por que a OMS considera isso um marco?

A Organização Mundial da Saúde já aponta o lenacapavir como um dos avanços mais importantes da última década na prevenção do HIV.

Três pontos sustentam essa visão:

  1. Ampliação das opções preventivas: soma-se ao arsenal que já inclui PrEP oral, cabotegravir injetável bimestral e o anel vaginal com dapivirina.
  2. Aumento da adesão e retenção: menos consultas, menos barreiras logísticas e emocionais.
  3. Avanços na equidade: esforços coordenados estão em andamento para que países com alta carga de HIV tenham acesso rápido e facilitado.

Desafios no caminho

Apesar do avanço científico, alguns obstáculos permanecem:

  • Preço: nos EUA, o custo anual estimado é de aproximadamente US$ 28.218, o que levanta preocupações sobre acesso em países de baixa e média renda.
  • Logística de aplicação: exige infraestrutura para administração subcutânea e acompanhamento regular.
  • Distribuição global: embora a fabricante, Gilead, tenha firmado acordos para produção de genéricos sem royalties em 120 países (o Brasil não está incluído), ainda há pressão internacional por preços mais acessíveis e logística eficiente.

O que esperar daqui pra frente?

A aprovação do lenacapavir para uso como PrEP representa uma mudança no modelo de prevenção.

A ciência entrega uma solução robusta, prática e altamente eficaz. Agora, o desafio é transformar essa conquista em acesso real, especialmente para populações historicamente negligenciadas na resposta ao HIV.

Como médico infectologista, meu papel — e de toda a comunidade médica — é garantir que essa informação circule, seja discutida e se traduza em escolhas de cuidado mais acessíveis, seguras e eficazes.

Atualização profissional e educação em saúde salvam vidas.

Se você é profissional de saúde, mantenha-se informado sobre as diretrizes de PrEP (atualmente só temos PrEP oral no Brasil) e considere discutir essa opção com seus pacientes.

Se você é gestor, comunicador ou trabalha com saúde pública, reflita sobre como tecnologias como o lenacapavir podem ser incorporadas ao cuidado, contribuindo para uma resposta mais efetiva e inclusiva ao HIV.

E, claro, se você quer aprofundar este tema, estou à disposição para mais abordagens sobre prevenção do HIV e atualizações em infectologia aqui no meu blog.

Guilherme Otávio Varino Cornelio - Doctoralia.com.br

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